A Teoria do conhecimento em Platao
Introdução
Platão (428 a.C. à 387 a.C.) procurou resolver as antinomias que apresentava tanto a filosofia do ser de Parmênides, quanto a filosofia do devir de Heráclito, oferecendo como solução a graduação do ser e o nível de conhecimento equivalente a cada grau. Se o primeiro negava toda a realidade que penetrava em seus sentidos para cair num monismo absoluto, ao mesmo tempo em que dava os primeiros passos no princípio de não-contradição; o segundo defendia a incognoscibilidade do real, pois a realidade, em constante mudança, não podia ser captada pela inteligência, pois esta a petrifica.
Nietzsche, filósofo do século XIX, sustentava que a filosofia platônica era dualista: o contraste entre os opostos, entre o dionisíaco e o apolíneo, era a linha mestra que guiava o percurso platônico. Parece-nos que a posição nietzschineana é equivocada. Sua interpretação é demasiadamente simplista e foge a verdade. Platão não é um dualista, pois sua filosofia é constituída de graus - como dito anteriormente - que chega ao ápice na Idéia de Bem, que está para além do ser e é pura inteligibilidade.
Ontologia
Um dos grandes problemas que permeou a filosofia desde sua origem em Tales de Mileto até Platão foi o do conhecimento. Se a realidade está sujeita ao devir, como conhecer algo? Como pode dar-se a ciência, se a realidade está sempre em movimento, já que aquela é algo estável? Por exemplo, a ideia de árvore é fixa, imutável, não depende de nenhuma árvore particular, já que estas estão sujeitas a geração e corrupção, e abarca qualquer tipo de árvore . Desse modo, como se pode ter uma mesma ideia que corresponda às diversas árvores da realidade? Seguiram-se duas posições:
1 - ou se alegou o caráter ilusório da realidade, valendo-se apenas da inteligência como fez Parmênides, e, por conseqüência, caindo-se num monismo absoluto;
2 - ou defendeu-se a incapacidade da inteligência para apreender a realidade como sustentou Heráclito, caindo-se, assim, num mobilismo total.
Este é exatamente o problema que Platão tentou responder. Para isso, ele sustentou dois planos: o plano sensível que corresponde a realidade como nós sentimos e postulou o plano das Ideias, onde se situam as Ideias que são alcançadas unicamente pela nossa inteligência. "Platão compõe a antítese entre as duas escolas exatamente com a distinção de dois diversos planos da realidade: não toda realidade é tal como queriam os heraclitianos, mas somente a realidade sensível; analogamente, não toda a realidade é tal como queriam os eleatas, mas somente a realidade inteligível, as Ideias" (REALE, Giovanni. Historia da Filosofia Grega e Romana: Platao. São Paulo: Loyola, 2007, vol. 3, p. 70)
O método que permite alcançar este último plano, i.é, o plano das Ideias, Platão chamou de Segunda navegação. Esta possui duas fases:
1 - A teoria das Ideias
2 - Os princípios supremos.
Limitaremo-nos apenas a primeira a fim de nos concentrarmos na teoria do conhecimento, lembrando que ontologia e lógica estão ligados em Platão:
"Assim, por exemplo, os dois grandes problemas que enfrenta Platão, o do ser e o do saber, dependem entre si de tal sorte, que sua atitude ante cada um deles aparece sempre dependendo do outro. Seu conceito de ser depende de seu conceito de ciência, e, por sua vez, em seu conceito de ciência vai implícito seu conceito de ser.” (FRAILE, Guillermo. Historia de La filosofia. 5 ed. Madri: BAC, 1982, vol. 1, p. 301-302, tradução nossa)
Teoria das Ideas
Platão pensa ter encontrado a solução para o problema acima descrito, sustentando a existência das essências da realidade sensível em outro plano[1]; em outras palavras, ele atribui uma realidade ontológica às Ideias (essências). Essas Ideias não são puros seres de razão; não são simplesmente uma representação mental. Elas possuem uma existência própria; subsistem por si mesmas. São aquilo que há de mais verdadeiro. Elas possuem, segundo Reale (2007), as seguintes características:
1 - Inteligibilidade : só podem ser captadas pela inteligência
2 - Imaterialidade: não possuem matéria
3 - Ser em sentido pleno: as Ideias são o ser que existe de modo mais verdadeiro
4 - Imutabilidade: não sofrem nenhum tipo de mudança
5 - Perseidade: as Ideias são absolutamente objetivas; existem por si mesmas
6 - Unidade: cada Ideia é una e unifica a multiplicidade existente no mundo sensível.
Temos, portanto, 2 planos de realidade: o plano inteligível e o plano sensível. O primeiro possui as Ideias que são o ser por excelência, enquanto o segundo são mesclas do ser com o não ser: a realidade sensível tem o ser, mas não é o ser. "Mas entre o ser e o não-ser existe uma categoria intermediária, que corresponde ao devir, ao vir-a-ser, ou seja, o ser em movimento, o qual tem algo de ser, mas sem chegar a plenitude perfeita do ser." (FRAILE, Guillermo. Historia de la filosofia. 5 ed. Madri: BAC, 1982, vol. 1, p. 304, tradução nossa)
Assim, temos o grau de correspondência do saber para cada tipo de ser:
1 - não ser - - - ignorância
2 - devir - - - Opinião - - - Mundo sensível
3 - Ser - - - Ciência - - - mundo Inteligível
Uma coisa é o que é por causa do seu modelo, pertencente ao mundo inteligível. Por exemplo, qual a ligação existente entre os diversos tipos de mesas que existem no plano sensível? Por que podemos chamar "mesa" a seres que parecem tão distintos, já que umas são retangulares, outras quadradas, outras redondas, outras ainda de vidro, de madeira, de mármore, etc.? Podem-se chamar todas de mesa, pela participação delas na Idéia de Mesa existente no mundo Inteligível. As mesmas formas sensíveis remetem, por participação, a uma forma inteligível que só pode ser captada pela inteligência. "Cada Ideia é uma unidade e, como tal, explica as coisas sensíveis que dela participam, constituindo deste modo uma multiplicidade unificada." (REALE, Giovanni. Historia da Filosofia Grega e Romana: Platão. São Paulo: Loyola, 2007, vol. 3, p. 74).
O problema que surge desta teoria é: como podemos ter a ideia de algo se este algo não pode ser extraído do mundo sensível? Por exemplo, como podemos ter a ideia de mesa, se as mesas particulares não têm a essência de mesa nelas próprias? Como temos acesso a ideia de mesa, se essa não pode ser extraída a partir das mesas sensíveis, já que ela não se encontra presente nestas? Ou ainda, como essa ideia (a de mesa) vem a mente quando entramos em contato com as mesas sensíveis? É neste ponto que entra a teoria da reminiscência ou anamnese!
Anamnese
Nossa capacidade de conhecer as coisas, na verdade, nada mais é que uma rememoração dessas mesmas coisas, pois já a possuímos em nossas almas. Apesar do cunho mítico que Platão dá, a principio, por causa de suas influencias órficas, ele não deixa de dar argumentos mais contundentes a favor de sua tese. Em outras palavras, ele tenta demonstrar na prática que as Ideias são inatas e, por conseqüência, que a alma é imortal.
O primeiro argumento é dado a partir da aplicação do método maiêutico a um escravo que, sozinho, sem saber geometria, resolve um problema geométrico. Ou seja, o escravo lembrou-se de algo que Platão apenas ajudou a extrair.
Outro argumento usado por Platão é o das figuras geométricas. A partir da realidade não somos capazes de extrair figuras perfeitas, afinal não existe, por exemplo, um triângulo perfeito na realidade. Podemos até desenhar um triângulo, mas este sairá com algum formato, seja ele, isósceles, eqüilátero ou retângulo, mas jamais conseguiremos desenhar “O Triangulo”. Sendo assim, como podemos pensar em triângulo cuja ideia abranja qualquer triangulo que exista na realidade? A resposta é exatamente por termos já em nós a ideia de Triangulo. Constata-se que há um desnível entre aquilo que temos em nós (a Ideia) e aquilo que nos fornece a experiência sensível; portanto pode-se afirmar que a Ideia possui um algo a mais. “E de onde poderá derivar este plus? Se, como se viu, não deriva e não pode estruturalmente provir dos sentidos, isto é, de fora, não resta concluir senão que provém de dentro de nós.” (REALE, Giovanni. Historia da Filosofia Grega e Romana: Platão. São Paulo: Loyola, 2007, vol. 3, p. 157).
Portanto, “as Ideias são realidades objetivas, absolutas que, por meio da anamnese, se impõe como objeto da mente.” (REALE, Giovanni. Historia da Filosofia Grega e Romana: Platão. São Paulo: Loyola, 2007, vol. 3, p. 161). A experiência sensível nos ajuda somente a recordar de algo que já se encontra presente na alma: vemos uma mesa, para nos recordarmos da Mesa. “O conhecer é possível porque temos uma intuição originaria do verdadeiro” (REALE, Giovanni. Historia da Filosofia Grega e Romana: Platão. São Paulo: Loyola, 2007, vol. 3, p. 161).
Realista exagerado ou nominalista
Muitos autores afirmam que Platão, por sustentar a existência das Ideias separadas das coisas, seria um realista exagerado em contraposição a Aristóteles e São Tomás que seriam realistas moderados e os nominalistas como Guilherme de Okcham ou um Kant por exemplo.
No entanto, esta não é a posição de Regis Jolivet para quem a visão platônica não seria mais do que uma forma de nominalismo:
“Distingue-se comumente o realismo exagerado (que é o idealismo ontológico de PLATÃO) e o realismo moderado (o de ARISTÓTELES e de SÃO TOMÁS). Mas essa distinção, como os termos (“exagerado”, “moderado”) pelos quais ela se exprime, depende do ponto-de-vista crítico. Psicologicamente, só há, na verdade, duas posições: a do nominalismo (a ideia, de modo algum, provém da experiência) e a do realismo (a ideia provém da experiência). O idealismo de PLATÃO, como o ocasionalismo de DESCARTES e de MALEBRANCHE, ou o idealismo de KANT, não passam de tentativas para resolver os problemas formulados pelo nominalismo inicial. É, portanto, esse nominalismo que caracteriza essencialmente estas doutrinas.”[2] (JOLIVET, Régis. Tratado de filosofia: Psicologia. Rio de Janeir: Agir, 1967,vol.II, p. 467-468)
Crítica de São Tomás a Platão
São Tomás, na Suma Teológica, após a explicação sobre a teoria platônica, diz que esta é errada por dois motivos:
“Em primeiro lugar, de fato, porque uma vez que aquelas são imateriais e imutáveis, excluir-se-ia das ciências o conhecimento do movimento e da matéria (que é próprio da ciência natural) e a demonstração pelas causas motoras e materiais.”(Suma Teologica, Ia,q.84,a.1, resp.)
Em outras palavras, uma filosofia da natureza se tornaria impossível. É o que diz Jacques Maritain:
“É bem simples, não há, não pode haver filosofia da natureza em um sistema como de Platão. De um lado temos a doxa, a opinião, que diz respeito ao mundo sensível e a seu devir, de outro tem-se o mundo dos arquétipos eternos, objeto da metafísica. De um lado, portanto, tem-se a opinião que incide sobre o mundo do devir, e de outro, enquanto ciência, têm-se a matemática e a metafísica, nenhum conhecimento científico do mundo do movimento e do tempo. ” (MARITAIN, Jacques. Filosofia da Natureza. São Paulo: Loyola, 2003, p. 17)
O segundo argumento usado por São Tomás é que “parece ridículo que, quando buscamos o conhecimento das coisas que nos são manifestas, tragamos à baila outros entes que não podem ser as substâncias delas, por diferirem delas no ser, assim, conhecidas aquelas substâncias separadas, nem por isso poderíamos julgar acerca destes sensíveis.”
Do erro de Nietzsche
Nietzsche sustenta um dualismo em Platão: o mundo sensível contra o mundo inteligível; e o acusa de exaltar o segundo em detrimento do primeiro. Parece-nos que Nietzsche não entendeu corretamente Platão e inseriu um elemento – o dualismo – que se a princípio pode realmente parecer verdadeiro, no entanto, se mostra falso sob um olhar mais profundo. O próprio Reale reconhece que esta concepção dualista pode parecer verdadeira, pois diz ele: “Depois de tudo que dissemos, pareceria inevitável falar de concepção dualista da realidade em Platão...” (REALE, Giovanni. Historia da Filosofia Grega e Romana: Platão. São Paulo: Loyola, 2007, vol. 3, p. 75). Mas o próprio diz qual é a visão correta: “Mas, na realidade, trata-se de puro preconceito teórico, que se deve rigorosamente evitar se se deseja compreender Platão. Desde logo, observe-se que as Idéias têm tanto de imanência quanto de transcendência [...]. Para Platão a transcendência das Ideias é justamente a razão de ser (ou seja, o fundamento) de sua imanência.” (REALE, Giovanni. Historia da Filosofia Grega e Romana: Platão. São Paulo: Loyola, 2007, vol. 3, p. 75). Para Platão, portanto, as Ideias são a causa verdadeira do sensível e só podem sê-la porque o transcende. O que se nota, é que existe uma hierarquia em toda a realidade platônica e não um dualismo como quer Nietzsche. Um nível de realidade só pode ser explicado a partir do nível acima. Torna-se necessária a existência de todos os níveis acima da realidade sensível para esta existir. Apesar da oposição que existe entre as características das Idéias e das coisas sensíveis - já que uma é imaterial e a outra material, uma é eterna e a outra corruptível, etc. - não há verdadeira oposição entre o mundo sensível e o mundo inteligível, e mais especificamente entre a coisa sensível e seu modelo correspondente, mas apenas o fato do segundo estar a um nível acima do primeiro - sendo condição deste – e, portanto, mais perfeito e mais próximo do nível último que é a Idéia de Bem.
Fazendo um quadro a partir da própria “alegoria da linha dividida em segmentos” feita por Platão, temos a seguinte hierarquia tanto no plano ontológico (do lado esquerdo da linha que aponta para Bem) quanto no plano lógico (do lado direito da linha que aponta para o Bem):
Conclusão
Platão buscou resolver o problema da teoria do conhecimento resultante das concepções de Heráclito e Parmênides. Sustentou, para isso, a distinção entre o plano ideal e o plano sensível, sendo este último somente possível por causa daquele. Apesar de sua solução ter conseguido unir ser e mobilismo, sua concepção levantou objeções e críticas, como a de Santo Tomás que irá defender que o corpo, a partir da visão platônica, perde seu porque de existir: o corpo não seria um instrumento, mas um obstáculo, pois, para Platão, a única forma de conhecer seria a partir das idéias presentes na alma; todo conhecer seria, na verdade, recordar.
[1] Quando se fala em plano ou mundo das idéias não se deve pensar num espaço físico determinado ou numa região delimitada como uma espécie de “céu” das Idéias, pois estas são incorpóreas, não possuem matéria.
[2] “…a crítica tem por fim julgar a razão como faculdade do ser, e a Psicologia visa simplesmente a descrever o funcionamento dessa mesma razão. O problema do valor da ideia apresentar-se-á, pois, de maneira diferente em Crítica e em Psicologia. Nesta, tratar-se-á apenas de lhe determinar o modo de representação próprio (valor empírico), ao passo que em Crítica se tratará de lhe definir o valor absoluto, isto é, de julgar a pretensão do pensamento de atingir o ser para além dos fenômenos, e as causas e os princípios primeiros para além do sensível e do múltiplo da experiência.” (JOLIVET, Régis. Tratado de filosofia: Psicologia. Rio de Janeiro: Agir, 1967,vol.II, p. 466)
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